Siza Barroco é uma condição do trabalho de Álvaro Siza desde cedo reconhecida pelo próprio. O projecto de investigação homónimo, desenvolvido ao longo dos últimos três anos no Centro de Estudos de Arquitectura e Urbanismo sediado na FAUP, expõe‑se agora, por fim, numa alusão ao ensaio Arquitectura para os Museus de Aldo Rossi.
A investigação procurou reunir as obras, os escritos e os desenhos de Siza, hoje dispersos por vários arquivos e geografias, colocando‑os em relação num único sistema de catalogação.
O material foi organizado e identificado recorrendo‑se à sigla SWV, iniciais de Siza Work Version, à imagem e semelhança do sistema BWV que Wolfgang Schmieder criou para as pautas barrocas de Bach. A teoria da arquitectura elege a data primeira como essencial à compreensão da obra. Já a História geral, dá preferência às datas finais entendidas enquanto testemunhos de um feito alcançado. A equipa de investigação Siza Barroco procurou juntá‑las numa única sigla, assim, duplamente cronológica.
SWV197678, uma das 18 obras em exposição, identifica, deste modo, a casa que Siza projectou e construiu para o seu irmão entre os anos 76 e 78 do século XX, período em que Matta‑Clark desenvolvia o seu Office Baroque, obra convocada na câmara de ecos barrocos que esta exposição também propõe.
O cânon de “Siza, Câmara Barroca” cobre todo o arco temporal da obra do autor, desde “Esperando o sucesso” (título roubado à obra de Henrique Pousão, pintada em Roma em 1882, cuja figuração é a metáfora do jovem Siza em construção), passando pelos períodos, não cronologicamente dispostos, Betão, Branco e Dourado que identificámos como as várias fases de Siza (como acontece em Picasso), ainda que com flutuações, contaminações, ressonâncias e, sobretudo, recorrências. A incidência em obras iniciadas nas décadas de ouro de 70 e 80 do século XX, as mais barrocas ideologicamente, expõe a afinidade que, desde cedo, as composições do autor estabelecem com a Ideia de Barroco. Por vezes inconscientemente (talvez), mas também de forma procurada como o próprio afirma.
Sobre SWV197678, Siza, barroco como a pérola irregular que originalmente (e em língua portuguesa) lhe dá nome, dirá mais tarde:
“Esta casa estabelece relações, por exemplo, com a arquitectura barroca, mas isto não é muito importante. É um exercício que eu gosto e o meu irmão também. É algo distinto, um projecto que me deu a possibilidade de investigar…”
Assim, o que se procurou expor propõe um ponto de vista e um enquadramento captados a partir do interior desta câmara, numa composição barroca que convoca a obra de Siza através de muitas lentes elípticas: dos seus fotógrafos; dos seus desenhos (reproduções preferencialmente em planta); de desenhos de alunos (originais) que são cópias de arquitecturas barrocas e de arquitecturas do autor; de peças antigas em ouro, talha e “granito doirado”; de práticas artísticas antigas e modernas; dos livros (intemporais ou datados) – um pequeno espaço de contemplação e, simultaneamente, de pensamento.