Joana Couceiro et al.
Arquitectura, Investigação e Escrita

Roteiro de viagem pela cidade sem nome

2005

A · Narrativa

|Fig.|

Roteiro de viagem pela cidade sem nome

Avançamos por uma paisagem estranha, desconexa; uma amálgama de viadutos, torres, vivendas… Um tecido que se dissolve. A N2 deixa-nos no centro de um estranho labirinto ortogonal, uma das cités, ou grands ensembles, que contaminam o território da periferia de Paris. Destinados a albergar grandes quantidades de população a baixo custo, são, de um modo geral, vastos, densos, introvertidos…
Assim é La Rose des Vents, bairro também conhecido por “les 3000”, número de apartamentos que foram aqui construídos em poucos meses.
Longas barras com cinco pisos de altura serpenteiam o terreno. A circulação automóvel é fluida, o estacionamento fácil. Programaticamente, tudo está aqui; mas é como se nada existisse. Um espaço contínuo, homogéneo, sempre igual a si mesmo… Percebe-se a aplicação directa dos preceitos da Carta de Atenas: sol, espaço e verde. Respostas adequadas a cada problema isolado, mas um gigantesco nada quando os elementos se relacionam.
Na Rosa dos Ventos, as utopias do urbanismo modernista resultaram numa terra de nada, de ninguém… um gueto habitado por corpos mecânicos, feridos. Das janelas dos infinitos blocos, resta-lhes olhar as árvores e a relva, essa paisagem imóvel incapaz de criar condições favoráveis ao nascimento de urbanidade.
Sente-se a ausência da rua nesta superfície contínua e lisa, tão sonhada pelos modernistas.
Ouve-se, ao longe, o rumor da velocidade do automóvel. Vamos ao seu encontro.
A paisagem continua um pouco a mesma. Um território anónimo, ferido. Um emaranhado de vias, nós complicados, zonas industriais…
Seguimos na interstate 4, a estrada que vem de nordeste.
Um anel de floresta virgem, constituída por pântanos a que denominam preserved wetlands, parece proteger um lugar diferente.
Chegámos a Celebration, uma “ilha” na paisagem.
Os limites criados pelas estradas de grande velocidade são acentuados pela implantação de um campo de golfe que torna a cidade estanque à poluição e ao ruído do automóvel. Este espaço, verde e com lagos artificiais, é a muralha que marca um dos limites de Celebration, uma imagem semelhante às cidades jardim de Ebenezer Howard. A sublinhar este limite, encontramos uma vedação que circunda toda a cidade.
Apesar da cerca branca fortificar este território, entramos…
Entramos em Celebration.
Desenhada para ser experimentada a pé, Celebration contrapõe-se ao espaço dos subúrbios, talhado à medida do automóvel, que percorremos até aqui.
A cidade é constituída maioritariamente por ruas curvas possibilitando um efeito surpresa, de descoberta, a quem as percorre. Um grande eixo liga o Golf Resort à downtown, a zona comercial que acumula vários programas: restauração, diversão, serviços…
Os bairros residenciais, com habitações de 2 a 3 pisos, ocupam grande parte deste território.
Há oito tipos diferentes de habitação e seis estilos de construção.
São colagens, pastiches de tempos e lugares destinados a criarem uma unidade visual da cidade.
As pessoas que vivem aqui, ao adquirirem uma casa, sabem que estão, também, a comprar um life-style: um ambiente fifties, a América dos anos 50, hoje. Celebration recria o grande espírito de comunidade supostamente existente no pós-guerra e perdido através dos tempos. Tem a capacidade de despertar memórias, mesmo aos que nunca as viveram. A colagem de um catálogo de elementos arquitectónicos fazem de Celebration uma “cidade-álbum-de-fotografias”, como Andrew Ross¹ a classifica. Um álbum constituído por imagens que não lhe pertencem, mas que têm a capacidade para serem as principais geradoras do seu carácter e individualidade. Imagens construídas por arquitectos como Michael Graves, Philip Jonhson, Charles Moore, Robert Stern, César Pelli, Aldo Rossi, Robert Venturi & Denise Scott Brown…
Parece uma cidade construída ao contrário, a negação da própria cidade. Essa que está fora daquela cerca branca e que desejamos conhecer.
Continuamos a viagem, atravessando os verdes e húmidos campos de golf. Ao fundo, os blocos tristes e cinzentos dos grands ensembles apagam-se no céu. Ultrapassamos a barreira da via rápida, agressiva, e penetramos nas ruas densas e apertadas da medieval Bolonha.
Caminhamos ao longo de pórticos, de fachadas em tijolo… A luz é amarelada, essa luz de Itália.
Avistamos, ao fundo, duas torres elegantes, inclinadas. Seriam altas, não fosse o perfil dos arranha-céus de Manhattan, por trás, a encolhê-las. As torres de Asinelli e Garisenda são duas das muitas torres que foram construídas, no séc. XII, pelas famílias importantes de Bolonha. Caminhamos até às praças centrais, Piazza Maggiore e Piazza del Nettuno, onde se concentram os palácios medievais e podemos visitar as igrejas de San Petronio e San Domenico. Continuamos a atravessar este pedaço de cidade. Mais adiante, reconhecemos o Archiginnasio, pertencente à universidade de Bolonha, um dos mais antigos da Europa. À medida que caminhamos para oeste, vamos perdendo a luz amarelada e ganhando a sombra da cidade vertical, vizinha.
O novo e o velho encontram-se aqui, extremo sul de Manhattan. Igrejas, monumentos, convivem no meio de arranha-céus. Depressa nos lembramos de Woody Allen; a cidade celulóide é-nos familiar, mesmo que estejamos lá pela primeira vez…
Os táxis são amarelos, muitos, e param quando fazemos sinal. O alcatrão é quente e das grelhas metálicas sai uma nuvem de fumo… há vida lá em baixo.
Continuamos pela Wall Street, passamos o banco central dos EUA ouvindo o pregão dos correctores da Bolsa, New York Stock Exchange, o centro dos mercados financeiros do mundo. Aqui, desfilam os frenéticos colarinhos brancos, de pasta na mão, e as compridas limousines que entopem a rua estreita e intimidante.
Ao fundo da Wall Street, Trinity Church, construída em estilo gótico, vê a sua escala reduzida pelos arranha-céus que a cercam. Na altura da sua construção, em 1846, a torre, de 26 metros, era a mais alta estrutura da cidade; agora é engolida pelas molduras verticais.
No céu de Manhattan desenham-se quatro formas geométricas; são os remates das quatro torres do Financial Center, onde algumas das mais importantes empresas financeiras têm o seu escritório. Se as torres Gémeas do World Trade Center ainda estivessem de pé, disputariam o protagonismo.
Resta o vazio, agora; a maior memória da tragédia… Querem destruí-la, também…
Caminhamos para norte, na Broadway; por trás das fachadas dos edifícios, mais baixos, sente-se uma cultura alternativa. Viramos para oeste percorrendo a zona de TriBeCa (Triangle Below Canal Street).
À medida que as rendas do SoHo atingiam níveis elevadíssimos, surgiam novos enclaves criativos.
TriBeCa foi um dos primeiros a absorver a mudança dos talentos artísticos; os seus primitivos armazéns de especiarias, depressa se viram transformados em espaços de habitação para os novos moradores e em pequenos restaurantes, excelentes sabores…
Continuamos. A avenida Diagonal corta os quarteirões de uma malha urbana regular.
Podia ser a Broadway, rasgando a cidade rectangular resultante do colonialismo europeu. Mas não há distinção entre avenidas (norte-sul) e ruas (este-oeste), estas não estão numeradas e a imagem e proporção dos quarteirões não deixam dúvidas.
Eis-nos no meio de Barcelona, a desenhada por Cerdà, considerado o “primeiro urbanista” pela sua abordagem científica na análise da cidade.
Na esquina do Passeig de Gràcia com a Carrer de Provença está a Casa Milà (1910) de Antoni Gaudí, mais conhecida por La Pedrera. Os balcões de ferro forjado parecem vibrar, produzir música, embalando pedra ondulada da fachada. Atravessamos vestíbulos, pátios com pintura mural e, no último andar, visitamos um museu dedicado a Gaudí. Subindo ao terraço, para contemplar a cidade, somos confrontados por uma espécie de máscaras que lembram as cabeças da Ilha de Páscoa. São, afinal, inocentes chaminés, personificadas, recriadas pelo arquitecto. Abraçamos a cidade, uma vasta quadrícula de quarteirões, com as esquinas biseladas, atravessados pela Diagonal. Uma regra simples e estruturante que, ao mesmo tempo, permite uma grande variedade de espaços e tipologias de ocupação. Assim acontece neste espaço miradouro, a Casa Milà, ou na Casa Batlló (1907), também no Passeig de Gràcia, perto do cruzamento com a Carrer d'Aragó. Em ambas, Antoni Gaudí estica os limites da regra instituída.
A completar o desenho deste tapete, a Sagrada Família perpetua o arquitecto que, omnipresente, continua a construir a obra, para sempre inacabada...
Barcelona fervilha na aparente desordem de reencontros entre épocas e civilizações. A cidade preserva o seu património sem, no entanto, se deixar aprisionar.
Las Ramblas, uma imensa avenida verde, fazem a ligação entre o Eixample, esta parte da cidade, e os bairros populares. Aí desfila Barcelona até encontrar as ruas tortuosas dos bairros da parte baixa da cidade. Uma zona antiga que engloba bairros como Ribera e Arrabal. Um coração palpitante, emaranhado de ruas onde se animam os últimos artesãos da cidade e se escondem imponentes moradias aristocratas e burguesas. Caminhamos por um labirinto de becos, a história parece ter parado, e encontramo-nos com as margens do rio.
Uma rede de canais serpenteia magníficos palácios...
Nesta zona da cidade, a água é sempre a primeira a acordar.
Cedo, quando o Grande Canal ainda está vazio, o vaporetto n.º 1 faz o seu percurso em direcção às águas mais amplas de S. Marcos. Pelo meio fica um conjunto de paragens: São Silvestre, Santo Ângelo, São Tomás...
Vista das águas, a cidade parece suspensa.
As plataformas flutuantes das paragens dos transportes aquáticos rangem, balouçam...
Por trás do Grande Canal descobrem-se outros, mais estreitos, apertados, labirínticos. Barcaças, agora muitas, flutuam entre sombras, escutando o murmúrio da água que não se cansa de insinuar as pedras das fachadas. Transportam tudo, sacos de cimento, roupa lavada dos hotéis, bagagens empilhadas, mercadoria para abastecer cafés e supermercados...
Veneza, prisioneira de um corpo monumento, percorre-se a pé, porque as ruas têm geralmente a largura de um passeio. As esquinas são tensas, marcadas pelos encontros súbitos.
Ouve-se um dialecto, uma língua sibilante, difícil de entender, talvez uma das poucas formas de manter a ilusão de privacidade num lugar que deverá ser dos mais públicos do mundo.
A multidão de turistas segue com o avançar do dia.
As Ruas do Mercado, de Especiarias, do Mercador de Amêndoas, de Feijões, Vinho, Azeite, Utensílios de Ferro, Ostras… completamente inundadas de pessoas com mapas na mão, mostram como o poder de Veneza assentou essencialmente no comércio.
No cimo da Ponte Rialto, observa-se o elegante Grande Canal, o aproximar das gôndolas carregadas de turistas e o som de um acordeão.
Ao cair da noite a multidão recolhe-se.
Ouve-se, então, o silêncio nas ruas desertas. As casas estão vazias.
Ao longo dos anos, muitos estrangeiros (japoneses, norte-americanos, franceses…) compraram casa de férias aqui. Ficam vazias durante quase todo o ano…
O grande desafio deste pedaço de cidade, passa por incentivar a classe média a viver em Veneza, para que o seu futuro não seja tornar-se num museu ou numa Disneylândia onde já nada é real; Porque Veneza não quer viver apenas do turismo e das máscaras de Carnaval…
Ao final do dia, sem japoneses e americanos, já se torna possível observar na Praça de S. Marcos, quase deserta, da esplanada do Florian.
À escuridão cobre a cidade, os canais estão vazios para os poucos gondoleiros que circulam de noite e que, a pedido dos clientes, deslizam pelas velhas lagoas da cidade adormecida.
Misteriosamente, emerge das águas o silêncio encantado dos palácios; parece que contam a história fantástica da cidade. Vive-se a noite grave de S. Marcos, talvez ampliada pelo silêncio. É a voz de Veneza.
Atracamos, o silêncio das casas vai dando lugar à voz frenética da cidade nova que se reinventa a cada segundo. Vamos penetrando na zona de Shibuya, a cidade que não dorme.
Lojas abertas 24 horas por dia, máquinas automáticas espalhadas por todo o lado, múltiplos bares de karaoke, …
O lugar parece inspirar-se nos cenários de ficção científica. Tudo se vende, tudo se compra.
As direcções de navegação e inúmeras informações disponíveis de computador. Nas ruas de Shibuya, banho onde são lançadas as tendências da moda, a população jovem, completamente rendida às suas regras, desfila com as últimas criações dos estilistas.
Tóquio é o lugar da ousadia. A percepção é feita através de flashes: jovens “fashion” ao estilo gótico, empregados de botas com saltos de plataforma, raparigas “mascaradas” de enfermeiras, com gotas de sangue reais; look de girls, tatuagens, linhas de rímel nos olhos, costeletas de estrelas, sapatos fluorescentes, cabelos tingidos de todas as cores… o delírio.
Lost in Translation”. Tóquio é um universo flutuante, a cultura das imagens.
Amanhaceu. Em passo acelerado, a multidão, agarrada ao seu telemóvel e equipada com as mais recentes novidades tecnológicas, avança em direcção à estação de Shibuya.
Por trás, espreitam os arranha-céus de Manhattan e escondem-se as pequenas ruas e ruelas da Medina de Marraquexe.
Esta zona da cidade organiza-se em torno da medersa (mesquita-universidade) e do souk (ruas com lojas e artesanato).
Somos engolidos pela cidade, caminhamos entre a multidão, disputando o espaço com peões, bicicletas, motas, carros, carroças, burros, camelos, ovelhas... Aqui transborda a agitação, é "a cidade da alegria".
Ao longo das ruas da cidade vermelha sente-se o cheiro a lenha queimada, a ervas para chás em centenas de frascos de todas as cores... Ruas estreitas e sinuosas acabam, frequentemente, em becos.
Portas altíssimas e pesadas abrem para palácios inimagináveis; porque as fachadas, quase nuas, escondem impressionantes pátios interiores, afastados da rua, que isolam o ruído do caos lá de fora. Escuta-se o som da água a correr num tanque onde flutuam pétalas de rosa.
Apesar de Marraquexe significar "parte depressa", porque foi edificada num planalto de emboscadas, visitar este pedaço de cidade, é correr o risco de não continuar a viagem. Ficar. Comprar um riad no centro da Medina, com um pátio, uma ou duas oliveiras, uma fonte correndo dia e noite e um terraço, no cimo da casa, para contemplar a cidade, o céu e as montanhas.
Ouve-se francês, fala-se de astrologia, porque dos terraços de Marraquexe, todos à mesma altura, além do mapa da cidade, consegue traçar-se o mapa do céu.
Nos pátios escuta-se o silêncio, nos terraços vêem-se as estrelas, nas ruas labirínticas vive-se a festa.
Procuramos um restaurante na encantada Medina. Ouve-se o som de uma cítara berbere, a luz sépia torna tudo mais fluido, sensual. Arrumamos os mapas na mochila, não sabemos que horas são, queremos perder-nos...
Ouvimos o som de uns cânticos, talvez venha da mesquita de Whitechapel.
Rota 168: autocarros vermelhos, de dois pisos, dirigem-se para St. Paul's Cathedral atravessando a City, o centro financeiro da Europa.
Entramos pela porta de trás e fazemos um pequeno trajecto do percurso. Pela janela, um contraste marcante entre as construções vitorianas e os edifícios recentes da City: brilhantes, transparentes, espelhados.
Preparamo-nos para sair; antes, um revisor tinha vindo cobrar-nos a viagem.
O autocarro deixa-nos perto do Lloyd's of London. A tubulação deste edifício de Richard Rogers, em aço inoxidável, remete-nos de imediato para a imagem do Centre Georges Pompidou, em Paris. Ou para a densidade de guindastes que avistamos do outro lado do rio. Gostamos dessa paisagem, caminhamos até lá.
Com poucos moradores, a City, muito activa durante o dia, parece transformar-se numa cidade fantasma ao cair da noite.
Atravessamos o rio. À nossa esquerda contemplamos as torres e os passadiços da Tower Bridge.
Na outra margem, um território de guindastes a trespassar o céu...
Ainda assim, Berlim continua a ter mais espaço livre do que estaleiros. A sua principal característica é o vazio…
A cidade cresceu, quase sempre, por destruição, uma cidade atípica onde a última vez que todos os seus habitantes viveram, verdadeiramente, um tempo comum foi em 1945, o da devastação total, a hora-zero.
Berlim vive diariamente a vertigem da cidade que se reinventa.
O muro passava aqui e, durante vinte e oito anos, dividiu a cidade, dividindo o mundo. Continua a ser uma atracção nas partes em que não foi demolido. Restam poucas, mas é possível seguir parte do antigo traçado (155 km) pela linha marcada no pavimento.
Dentro do seu muro, Berlim era uma ilha apertada, ao mesmo tempo criativa, desregrada e de fácil orientação. Uma cidade cercada, onde o espaço não oferecia saída, a não ser a da extrema acumulação de identidades.
Estamos em Kreuzberg e apercebemo-nos que o território é habitado, na sua maioria, por turcos; uma sociedade à parte, que vive uma exclusão por mútuo consentimento. Os dias de mercado (terças e sextas-feiras), mostram-nos uma cidade diferente, um lugar ruidoso, caótico, sujo; mas também autêntico e imprevisível, uma terra irreal, ali localizada, ou perdida…
A música ecoa de cada porta. Dos queijos, às doçarias, passando pelas conservas, as bancas oferecem uma viagem de sabores. Os cheiros são intensos e misturam-se: chá, narguilés, pão amassado e cozido no momento…
Às vezes dá a impressão que ninguém é de Berlim, cidade aberta, cidade solitária.
Em Kreuzberg há também outros circuitos. Nas ruas desfila o tecno ou o punk a rigor, com botas Doc Martens, cães pela trela e ratazanas pelo ombro. Mas também há armazéns transformados em estúdios, na Auguststrasse, as galerias de arte rebentam como cogumelos. Num antigo edifício industrial um par dança no silêncio do TangoLoft. Há dançarinos, salões e escolas de dança, professores, estilistas, sapatarias, festas…
O tango é urbano. Combina com a angústia das grandes cidades, com o sentimento de solidão, de gente perdida na multidão…
Berlim é considerada a capital mundial do tango fora da Argentina, ou melhor, fora de Buenos Aires, de Montevideu…
E é esta vontade de abraçar alguém que nos transporta a Buenos Aires; porque apesar do tango fazer parte do património mundial, esse sentimento de tristeza que nos faz dançar, nasceu ali.
Pressentimos um modelo de cidade do Novo Mundo resultante da colonização espanhola.
Capital de um país de imigrantes, quase todas as raças, etnias e nacionalidades, deram origem ao porteño, o habitante de Buenos Aires.
Percebemos que a sua alma é, de facto, a alma do tango… porque o tango é uma mistura de culturas, está onde houver muita gente diferente.
Inútil tentar compreender a cidade sem nos deixarmos absorver pela sua música, a sua dança, os seus cafés, a amizade que, segundo Borges, é uma paixão muito argentina, e Gardel, a voz única de Buenos Aires.
O café é o lugar do sonho, onde os solitários se sentam a ler, escrever, meditar e os amigos partilham o reencontro. O café representa a segunda casa, um prolongamento do lar. Alguns são enormes: entra-se numa rua e sai-se por outra; é o caso, por exemplo, do Tortoni, aberto desde 1858; ou do Les 36 Billards, um pedacinho de Madrid na Argentina, instalado dos dois lados da Avenida de Mayo. Durante a guerra civil espanhola, um dos lados era frequentado pelos republicanos, o outro pelos franquistas.
Na rua Corrientes, apelidada como “a rua que não dorme”, não podemos decepcionar a noite…
Errante, o tango fazia de nós o que queria. Exaltava-nos e fugia-nos, dava-nos ordens e regressava ao nosso encontro…
Acordamos numa imensa plataforma. La Dalle des Olympiades.
Caminhando pela avenue d'Ivry, encontramos uma passagem sombria. Entramos curiosos. A chamada rue du Disque forma com a rue du Javelot, também escura e subterrânea, uma rede viária que atravessa a cave da plataforma.
Ao fundo, encontra-se o templo de culto de Bouddha, um lugar de sociabilidade para a comunidade asiática, também aberto aos estrangeiros. Apesar de visível da rua, a entrada do templo faz-se nesta rede subterrânea.
Os altares de culto estão cobertos de ofertas coloridas: laranjas, um fruto raro e, por isso, precioso na China, garrafas de óleo que simbolizam a luz e a perpetuação da vida.
Neste templo, cada um pode procurar o Deus que lhe convém, praticar o culto dos seus antepassados, procurar saber o seu futuro, ou, simplesmente, jogar às cartas com os amigos evocando memórias… É, sobretudo, um ponto de ancoragem da comunidade, onde esta encontra as suas identidades e reconstrói o seu universo.
O templo fica para trás; subimos de novo à plataforma, agora pelos elevadores. Uma série de lojas e restaurantes, com cobertura à chinesa, evocam pagodes; uma galeria comercial, Oslo, responde às necessidades ligadas à conservação da identidade cultural da comunidade, oferecendo os produtos étnicos que esta necessita. Ateliers de costura, bijutarias, lojas de cassetes áudio e vídeo, tecidos chineses, coloridos, brilhantes, agências de viagem, …, concorrem o espaço da galeria.
Por baixo da plataforma, encontram-se linhas do caminho-de-ferro e um mercado subterrâneo exótico que permite o abastecimento da Petite Asie, onde se acumulam uma série de camiões cheios de legumes e pilhas de sacos de arroz.
No nº48 da avenida d'Ivry, fica o famoso supermercado Tang Frères: legumes, frutas, peixes, alimentos impossíveis de identificar…
Recordações de Verão, escreve Alain Demouzon. “Da estação de metro Tolbiac regresso a casa pelo quartier chinois (…). Estilhaço brilhante de ideogramas chineses nos letreiros, vermelho, verde ácido (…). Dragão flamejante. Odores; fritos; molho agridoce; chá de jasmim (…).”²
É com estas recordações que avançamos, trespassando o corte da auto-estrada sem darmos por isso…
Agarrada à montanha, a favela, densa, desordenada, parece cair.
Na fragilidade dos seus tijolos, na intemporalidade dos seus jardins incultos, baldios, parece morrer e renascer todos os dias.
A primeira ocupação do morro deu-se na década de 40; a maioria dos favelados agruparam-se na parte baixa da Rocinha, ao longo da auto-estrada da Gávea e da primeira rua que não passava de um caminho chamado rua do Boiadeiro.
A partir de 1950 a invasão ganha outras proporções. Os abrigos precários começam a ocupar a parte alta da favela, enquanto a primeira zona se transformava em barracas. Como o percurso que estamos a fazer, a favela cresce de baixo para cima, de forma orgânica, partindo da estrada da Gávea e dos caminhos de penetração principais (ruas I, II, III e IV). Cada uma das ruas funciona como uma artéria que irriga uma zona limitada; o morro desenvolve-se à semelhança de uma árvore que se divide em ramificações cada vez mais numerosas até à sua extremidade.
Anos após ano, os abrigos foram pousando e cobrindo, progressivamente, todo o morro. Em 1980, todo o espaço habitável já tinha sido invadido e todas as ruas de penetração já chegavam à estrada da Gávea. A densidade é tal, que as construções cobrem inteiramente o solo, sendo impossível ter a percepção, em planta, das vias de penetração e dos caminhos secundários. Circunscrita entre as pendentes inacessíveis do morro e a auto-estrada de entrada e saída da cidade, a favela Rocinha aparece como uma nova natureza, um prolongamento do sítio onde as barracas, sobrepostas por camadas sucessivas, reproduzem as curvas de nível.
A favela baixa é mais antiga, os seus habitantes foram os primeiros a chegar e, portanto, os melhor implantados, próximos do acesso à cidade e dos benefícios da actividade comercial.
A favela alta, de difícil acesso, sem água e electricidade, é o lugar dos recém-chegados que se instalaram nos últimos terrenos livres, no fundo das penetrações existentes, agarrados à rocha abrupta.
Enquanto subimos, esta oposição (favela baixa-favela alta) é esbatida pelas etapas intermédias, que testemunham uma estratificação social na favela.
A solidariedade é forte, todos se conhecem no bairro. Encontram-se na rua, falam de barraca em barraca, tomam conta das crianças vizinhas…
O topo é perigoso, mesmo em pleno dia; escondem-se os ladrões, os delinquentes, marginais que fogem da polícia…
Ironicamente, é lá que fazemos a nossa reflexão; porque é lá em cima que conseguimos abraçar a cidade que percorremos, o mundo todo… Cidade Sem Nome.
Que destino seguir?
O “esparguete” de vias de circulação rápida levar-nos-ia à cidade dos sonhos, hiper-real…
Entre as estrias da sprawl city, o vazio da pista do aeroporto de S. Paulo levar-nos-ia a qualquer lugar…
De uma forma ou de outra, não sairemos desta cidade, porque o seu território, todo, nunca se fixa.
Este é, apenas, um dos mapas da Cidade Sem Nome. O mapa desta viagem… Porque a Cidade Sem Nome será sempre outra quando voltarmos a percorrê-la.
Talvez precisemos de regressar, como estranhos, aos lugares que habitámos, para então desvendarmos quantas cidades esconde uma grande cidade. Ou pode ser que um regresso seja, sempre, um reconhecimento da insuportável distância.