Joana Couceiro et al.
Arquitectura, Investigação e Escrita

Casa do Conto 1 e 2
Arts & Residence

2009

A · Arquitectura

Alguns dirão: não é um edifício brutalista; ou: só é brutalista na epiderme, enquanto estética arquitectónica. Parece que os ouço.
Durante o projecto e a obra nunca esteve na nossa mente uma ideia de estética brutalista, ou outra. O que nos movia era tão simplesmente a vontade de voltar a erguer uma arquitectura sucedânea da casa burguesa do séc.XIX, num lote no Porto (como tantos outros), destruída por um incêndio brutal. A casa que, apesar dessa brutalidade, mantinha a sua integridade perante a cidade. Era só a fachada, dirão alguns.
Para nós não era só a fachada.
Era um lote estreito e comprido, era uma ordem tipológica, era um logradouro e era, também, a fachada: intacta, com o ritmo e a forma dos seus vãos, as suas modinaturas, as cotas de soleira, e as cotas de lage, o azulejo, e a parede espessa de pedra, o granito que nem as chamas foram capazes de derrubar. Apesar do brutal incêndio, a rua mantinha-se aparentemente igual. Era só fachada, dirão alguns.
Tratava-se de continuar o que ainda existia (e era muito) sem mimetismos e sem rupturas. Tratava-se, simplesmente, de continuar o alçado e prolongá-lo para dentro, para o interior do lote, organizando o novo programa em continuidade com o tipo que o antecedia: compartimentos amplos em diálogo com pequenas alcovas, pés direitos altos e variáveis, escada ao centro do lote e posicionada perpendicularmente à entrada, clarabóia no topo, varandas fechadas voltadas para o logradouro.
Carlos Marti Aris iria apreciar as variações deste tipo. E sentimos um orgulho envergonhado.
Hoje compreendemos que a Casa do Conto é brutalista na medida em que os princípios definidores desta arquitectura terão sido os meios que encontrámos para continuar aquele lugar sem dar tréguas ao pastiche.A estética brutalista não é um fim (como pensarão alguns), mas um meio para construir uma arquitectura genuína, com a pedra (agora líquida, um material de hoje, com técnicas de hoje) que, simultaneamente, exibe a actual estrutura do edifício, a memória da antiga estrutura e o carácter dos antigos materiais, agora ausentes: as paredes de tabique, a chapa ondulada dos acrescentos da fachada tardoz, ou o ornamento dos tectos de gesso.
Hoje, o ornamento é textual, uma narrativa que substitui as histórias de cada compartimento antigo (aquelas histórias que se acrescentaram à cor e ao padrão do papel que forrava as paredes). Hoje, o ornamento acrescenta-se na ausência de material, no baixo-relevo de cada letra inscrita na espessura da própria laje, ou seja, da estrutura. E fomos nós, autores, com as nossas próprias mãos, no estaleiro, a pregar e colar cada letra na cofragem do betão (a mão de obra não era especializada; alguns moldes ficaram, para sempre, fossilizados no betão e o texto, com uma ou outra gralha, denuncia-nos e regozijanos, também).
O betão aparente e com diferentes técnicas de cofragem pareceu-nos, desde muito cedo, a opção mais racional para a reconstrução. O seu comportamento ao tempo (diferenciado: a norte, a sul, no interior, ou no exterior) e no tempo (a sua vida, o seu envelhecimento e, simultaneamente, a sua aparente perenidade), davam forma à ideia de continuar aquela arquitectura.
O que nos interessava, no estirador e na obra, era que aquela arquitectura fosse o renascimento da casa burguesa do séc.XIX à luz do nosso tempo. Ou seja, o nosso único ímpeto, enquanto autores (embora nãoo soubéssemos na altura), era a ‘modernidade permanente’ de que nos fala Távora.
Se os princípios do brutalismo serviram esta demanda (a esta distância e com a lente que este livro nos oferece, parece-nos que sim), então esta casa, além de burguesa e do séc. XIX, é, ainda, brutalista e do séc.XXI.
Parece que os ingleses voltaram a encontrar-se no Porto.

|Fig.| Casa do Conto 1
|Fig.| Incêndio
|Fig.| Casa do Conto 2
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Pedra Líquida


https://pedraliquida.com/pt/projects/casa-do-conto

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Fernando Guerra


https://ultimasreportagens.com/reportagem/426-pedra-liquida-hotel-casa-do-conto-porto-pt

  • Co-autoria Nuno Grande e Alexandra Coutinho (Pedra Líquida)
  • Período 2007-2011
  • Localização Porto
  • Fotografia Fernando Guerra